sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Corporativite crónica [3]

É necessário, urgente, libertar a sociedade portuguesa, desta corporativite crónica de que padece.
Mas é também premente libertá-la das estruturas empresariais que se implantaram na advocacia portuguesa, constantemente associadas a prestações de serviços milionários com empresas públicas ou com participação de capitais públicos.
A advocacia tradicional do advogado isolado está ameaçada, face a estruturas societárias em que se agregam uns quantos nomes, cuja sonoridade está muitas vezes associada aos meandros políticos ou partidários. Não é por abnegação que se opta por uma sociedade de advogados ao invés de se ser ministro – depois de já o ter sido, claro -, ou mesmo candidato a Presidente da República. É bem mais proveitoso ser sócio de uma sociedade de advogados que arrecada clientes como a GALP, ou que consegue indemnizações vantajosas, outrora dadas como perdidas, para os seus clientes. Falando em abstracto, obviamente.
Acontece, ainda, que há já sociedades de advogados portuguesas detidas por congéneres estrangeiras.
Fora tais refinamentos, as grandes sociedades de advogados operam em moldes estranhos à relação de confiança pessoal que deveria existir entre o cliente e o seu mandatário. Há procurações que são passadas por um cliente a diversos advogados, chegando mesmo às dezenas, mudando constantemente o rosto de quem o atende. Numa lógica que, a prosseguir, não tardará a absorver os “call centers” de chamada de valor acrescentado: para aconselhamento sobre contratos-promessa para habitação prima a tecla 4.
Muitos advogados sujeitam-se a prestar o seu trabalho numa lógica de contrato de trabalho, de molde a obviarem à massificação evidente que a classe está a enfrentar.
Emerge uma nova e ainda mais frígida variante do corporativismo moderno: a das sociedades comerciais de advogados que exploram outros advogados e articulam influências e capitais entre diversas esferas do poder.

j.marioteixeira@sapo.pt